Ao Pé da Cruz - Agosto
O SANGUE NA OBLAÇÃO
Em nosso condensado artigo anterior (Haimatologia), vimos como Hb 9,1-28 confronta as duas expiações: a do Yom Kippur e a do Calvário. O sangue é um dado central em ambas. Sem ele, quase nada é remido: Hb 9,22. Essas considerações devem ser enriquecidas pelo que diz Paulo: tudo o que foi escrito no passado, o foi para a nossa instrução, para a nossa esperança (Rm 15,4). Agora, para clarear e evidenciar o confronto existente entre as duas expiações, apresentamos, em paralelismo antitético, o que é dito em Hb 9,1-28, texto que deve ser conhecido:
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ANTIGA ALIANÇA |
NOVA ALIANÇA |
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Santo dos Santos: o lugar mais sagrado do templo: v. 3. |
Calvário: lugar profano, fora dos muros da “cidade santa”: Jo 19,19-20. |
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Atrás do véu, lugar oculto ao profano: v.3. |
Lugar visível para todos: Hb 13,12. |
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Lugar sagrado: vs. 4-5. |
Lugar profanado pelos crucificados: Jo 19,19. |
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Sumo Sacerdote judeu: v. 7. |
Jesus, sumo sacerdote dos bens vindouros: v. 11. |
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Remissão dos pecados próprios e do povo: v. 7. |
Remissão dos pecados da humanidade: v. 17. |
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Figura do tempo presente: v. 9. |
Cristo, em vista dos bens futuros: v. 11. |
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Sacrifício que não justifica: v. 8 |
Sacrifício justificante de Cristo: vs. 14-15. |
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Sangue de bodes, de bezerros: v. 12. |
Sangue divino do Senhor: v. 14. |
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Sangue que limpa o corpo das impurezas legais, exteriores: v. 13. |
Sangue que limpa as consciências, o interior do ser humano: v. 14. |
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Necessidade de sacrifícios anuais: v. 23. |
Sacrifício único, perfeito: v. 26 |
O confronto entre o dia da Grande Purificação judaica e o da Grande Purificação cristã (Calvário) mostra que entre elas há muito em comum, mas que há, também, muita discrepância. Nelas o sangue se faz presente, mas de modos diferenciados. Na Primeira Aliança ele procedia de muitas vítimas que eram imperfeitas; os animais “ignoravam” o que lhes acontecia. Não participavam “conscientemente”. Com isso, a maioria dos judeus descambou num ritualismo mágico e alienado: pela simples oferenda do sangue da vítima, imaginavam que o transcendental aconteceria automaticamente. Não se exigia maior envolvimento, quer do Sumo Sacerdote, quer do povo.
Na Nova Aliança também houve o derramamento de sangue; e nem poderia ser diferente. Todavia, o sangue era divino. Mais: anteriormente, a Vítima aceitou, amorosa e plenamente, assumir o sacrifício. Isso deu sentido ao que poderia ser considerado como um mero rito exterior, sem a essencial conotação de sua interioridade. Todavia, para que o projeto divino se concretizasse no tempo, necessário se fazia que o Verbo assumisse um corpo para a grande imolação, uma vez que os holocaustos e os sacrifícios do Antigo Testamento tinham sido rejeitados. Por isso, ao entrar no mundo, o Verbo proclamou: “eis que venho para fazer a tua vontade” (Heb 10,5-10).
Então, antes de tudo, Ele aceitou a “imolação interior” em prol da humanidade carente, fazendo-se “solidário com seus irmãos, tornando-se o Sumo Sacerdote misericordioso e fiel... para expiar os pecados do povo”: Heb 2,17. Com isso, diferentemente do que acontecia com os judeus, o derramamento do sangue de Jesus não foi um mero rito, e sim, um holocausto previamente assumido e plenamente eficaz. Portanto, fica claro que, a “eficacidade” da redenção não se baseia tanto nos sofrimentos de Cristo, e sim no seu amor por eles manifestado. Evidenciou-se que o Pai não era como as iradas divindades pagãs que só se aplacavam ao serem saciadas com carne e com sangue a elas oferecidas. Compreendeu-se que a redenção continua acontecendo só quando há o amor, a solidariedade e o serviço íntegros com aconteceu com Jesus.
Fica claro como, para Paulo, como na cruz, o Senhor se fez “propiciatório”: Rm 3,25. Propiciatório (comum a tradução: instrumento de propiciação) era a rica cobertura da arca da aliança. Nas purificações (Yom Kippur), ele era aspergido diretamente pelo Sumo Sacerdote: Ex 25,17-22. Quando dos sacrifícios para o perdão dos pecados, aspergia-se o véu que o ocultava. Materialmente falando, ele era muito mais rico que a arca. Detalhe importante: nele Javé se fazia presente e, de lá, comunicava-se com o povo. Então, no dia da grande purificação, ao se borrifar com sangue o propiciatório, praticamente era a Deus quem se aspergia.
Mas, para Paulo, o verdadeiro propiciatório é o Deus-conosco-crucificado que, na purificação definitiva e universal, se asperge com o próprio sangue e, com ele, também o povo: Rm 3,25. Esse propiciatório, porém, não ficou oculto aos olhos do mundo. Por meio desse amor manifesto na cruz, o Senhor atrairia todos a si: Jo 12,32. O antigo propiciatório era, então, um “tipo”, uma figura. O atual é o “antítipo”, o figurado, o real; é o Deus na cruz que acolhe com seu perdão. Por isso, o velho propiciatório, com a morte do Senhor, foi “profanado”, ficou exposto: Mc 15,38.
Remidos e santificados pelo sangue tão generosamente por nós derramado (Ef 1,7) devemos beber do cálice da bênção, na comunhão do sangue do Senhor: 1Cor 10,16. A passagem se refere à Eucaristia. Todavia, essa comunhão externa exige comungar o que, pelo seu sangue Cristo operou por nós e como Ele o fez. O pão e o cálice devem, respectivamente, ser comido e bebido salvificamente (1Cor 11,27ss) para a formação da comunidade dos eleitos (1Cor 10,16ss) o que implica o maior espírito de solidariedade de todos para com todos. Pelo seu sangue Cristo revela tanto o seu amor como o do Pai em favor da humanidade: Rm 5,8-11. Esse amor revelado, e que o acatamos, deve ser sempre, e cada vez mais, vivenciado e se tornar fonte de apostolado. Portanto, vivenciado, partilhado, concretizado.
Essa é a missão de todos os que assumiram o carisma passiológico: abrir-se, solidariamente, a todos os irmãos e irmãs, numa solidariedade que implique a oblação e o serviço. Mas como Cristo o fez. Isso é fazer Memória da Paixão. Paixão manifestada pelo Preciosíssimo Sangue. Dessa maneira, o Crucificado continuará sendo o propiciatório salvífico em prol da humanidade.
Pe. Mauro Odoríssio, CP
Pe. Mauro Odoríssio, CP
Data de publicação: 03/08/2010
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